Tal como foi publicado pela editora Gallimard em 1949, o primeiro livro escrito em francês pelo romeno Emil Cioran, Breviário de Decomposição, tem por autor E.M. Cioran, como, de resto, os livros escritos em francês que se seguirão; hoje em dia, porém, após o sucesso de Exercícios de admiração, de 1986, lê-se em muitas das capas de reedições recentes o único nome Cioran, “consagração” devida à Gallimard e não ao escritor. Ademais, todos os seus livros e artigos redigidos em romeno, anteriormente, são assinados com seu nome de batismo, Emil Cioran. Eis-nos aqui na presença de três nomes para o mesmo homem — aos quais deve-se acrescentar o afrancesamento do nome romeno, Émile Cioran, que encontramos em diversos documentos administrativos do autor na França, mas também como assinatura do texto “O parasita dos poetas”, extrato do Breviário de Decomposição publicado  à parte, antes da publicação do livro inteiro, e portanto antes da escolha definitiva da assinatura E.M. Cioran. Contemporâneo do câmbio de língua de escrita, da passagem do romeno ao francês, essa mudança de nome de escritor suscitou por muito tempo a ilusão, e Cioran deixou acreditar que se chamava Émile Michel, que impedia de reconhecer que se tratava de um empréstimo feito ao escritor E.M. Forster. De fato, conforme conta Simone Boué, à época do Précis de Décomposition, Cioran considerava que “Émile, em francês, parecia um nome de cabeleireiro.”

A crise identitária  que se revela aqui é amplamente corroborada pela consulta dos manuscritos do Breviário de Decomposição. Descobrimos aí que Cioran considerou assinar seu livro (ainda intitulado Exercícios negativos): E.E. Cioran, então, talvez, E.N. Cioran — mas há razão para crer que se trata de um erro, de uma aproximação escrita, corrigida em seguida pelo acréscimo de uma barra em E.M. Cioran. Para não ser confundido com um cabeleireiro vulgar, Cioran escolhe para si um nom d´écrivain, recorrendo ao repertório anglófono: antes de E.M. Forster, E.E. não deixa de evocar E.E. Cummings. Por que E.M. em vez de E.E.? Esteticamente, a repetição, pouco feliz oralmente, dos dois “e” de Cummings é menos atraente que as iniciais “E.M.”, que possuem a analogia fônica com “Emil”. De resto, qui se rassemble s’assemble (por aproximação, algo mais ou menos equivalente ao nosso “diga-me com quem andas e te direi quem és”): sabe-se que E.E. Cummings (1894-1962), poeta americano, celebra o amor, a natureza, a verdade, os sentimentos espontâneos, com humor e romantismo, numa forma resolutamente moderna (sem maipusculas, com pontuação reduzida e sintaxe deslocada); quanto a E.M. Forster (1879-1970), romancista inglês (dessa velha Europa que Cioran aprecia, contra a juventude dos Estados Unidos), ele denuncia a hipocrisia social que destrói o indivíduo; em Uma passagem para a Índia, ele constrói um quadro da Índia colonizada pelos ingleses, esclarecendo as diferenças entre as duas culturas.

Quem, então, escreveu o Breviário de Decomposição? Emil, o jovem romeno, Émile, o cabeleireiro francês, E.M., o romancista inglês, ou já Cioran, o escritor apátrida destinado à posteridade? Por volta dos 35 anos, Cioran se situa num carrefour linguístico e identitário; sua alma se fragmenta; sua vida, e ainda mais sua obra, encontra-se numa virada capital. Ele renuncia à sua língua materna (Emil), se recusa a traduzir sua romenidade ao francês por medo do ridículo (Émile), e prefere, à poesia, ao lirismo e à exuberância (E.E.), a reflexão, a razão e a lucidez objetiva (E.M.) — mas todos estes elementos permanecem nele, fraturando o seu ser; apenas o nome Cioran se justifica aqui, pois contém todos os outros, convocando todos os níveis da identidade de Cioran. É a entidade Cioran que escreveu o Précis de Décomposition, é essa entidade fragmentada que está em obra na gênese do texto que nós propomos estudar aqui.

CAVAILLÈS, Nicolas, Le Corrupteur corrompu. Barbarie et méthode dans l’écriture de Cioran. Paris: Éditions Le Manuscrit, 2005.

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