“Cioran, irracionalismo e racionalismos: sobre desleituras e mal-entendidos” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Devemos repetir a nós próprios todos os dias: Sou um daqueles que, entre milhares, se arrastam pela superfície do globo. Essa banalidade justifica qualquer conclusão, qualquer comportamento ou acto: deboche, castidade, suicídio, trabalho, crime, preguiça ou rebelião.
… E daí se conclui que todos nós temos razão em fazer o que fazemos.” (Do inconveniente de ter nascido)
“Busquei em mim mesmo meu próprio modelo. Para imitá-lo, dediquei-me à dialética da indolência. É tão mais agradável fracassar na vida…” (Silogismos da amargura)

TODA CRÍTICA e/ou acusação de “irracionalismo” é, ao mesmo tempo, implicitamente, uma afirmação — um statement — de racionalismo. Não existe ponto de vista exterior, não há nenhum “fora”, território neutro,tribunal não parcial, não relativo, não condicionado, enviesado, etc. Quem acusa, como uma polícia do pensamento: “Niilismo! Niilismo!” — pode ter certeza que é um moralista empedernido, um velhaco que beira o fanatismo, se é que não é um fanático atual. Assim, toda repugnância a “irracionalismos”, à experimentação com as potências negativas da razão, por assim dizer, revela sempre um espírito racionalista que se disfarça ou se ignora. Nem Camus escapou à tara — e ao pré-conceito — iluminista. Não se trata de negar o 2 + 2 = 4; tampouco se trata de aferrar-se a ele, abraçando com sofreguidão a necessidade lógica da razão, como quem necessita desesperadamente de chão, de um porto seguro, como quem se agarra a uma corda sobre o fundo de um insondável abismo… E aspirar, como Cioran, a não fazer nenhuma distinção entre o drama da carne e o drama do intelecto: “ter introduzido o sangue na lógica…” (Amurgul gândurilor)

*

Na Jornada Acadêmica dedicada aos 70 anos do Breviário de decomposição, alguém do público fez uma pergunta, pertinente dentre todas, que não foi devidamente elucidada, nem suficientemente discutida. Questionava-se as consequências práticas, ético-políticas, de um pensamento como o de Cioran. Notadamente, as implicações psicológicas, sociais e políticas (no sentido latu, filosófico) de um obra que promoveria, supostamente, o mais desabusado dos cinismos, o mais venenoso dos niilismos. Traduzindo-se em termos práticos, concretos: apatia, inação, alienação, passividade, depressão, suicídio…

Ora, nada mais equívoco, nada mais questionável do que tudo isso, pensado enquanto resultado ou expressão de uma existência que se pautasse pelas ideias e opiniões entretidas pelo autor do Breviário de decomposição. Grande erro, prova de uma visão limitada, estreita, de certa miopia em relação ao caráter polivalente, polifônico, fragmentário, performático e resolutamente autocontraditório, autorrefutatório, de uma obra. Uma obra que não foi concebida como exemplar inequívoco do gênero (formativo, edificante, moralizante, politizante) da Filosofia, conforme a uma tradição que remonta no mínimo a Platão e Aristóteles, mas que é tão criativa quanto reflexiva, tão lírica quanto filosófica, dir-se-ia “filopoética”, em grande medida musical (de onde a essencialidade do tom, da expressão, do ritmo, da cadência), enfim, uma obra-prima do hibridismo e da “impureza” abstrata. Cioran é um trickster, um clown de si mesmo; amiúde se escuta apenas, em sua leitura, o choro, o lamento elegíaco; é raro, porém, que se escute a risada, a gargalhada; aliás, que não se oponha — para não dar provas de ingenuidade — ironia e/ou seriedade, frivolidade e/ou profundidade, assim como, na fonte, na origem, nenhuma distinção se encontra entre a risada e o choro, ou sobre as razões de uma e do outro (distinções a serem feitas por cada leitor, caso queira, por responsabilidade própria).

Cioran tem perfeita noção, sem nutrir nenhuma ilusão em relação a isso, do caráter radicalmente paradoxal, e impopular, do teor das suas ideias: uma inversão-subversão calamitosa, a olhos vistos, de tudo o que é convencional, razoável, senso-comum, de tudo o que é normalmente aceitável e viável, em termos de vida prática e comum. Há uma maneira de ler Cioran que, sem tomar como definitiva nenhuma de suas teses, mantém-as sempre entre parênteses, em suspenso, na virtualidade de um ser-não-ser-pode-ser-que-sim-que-não. É improvável que alguém, tendo lido Cioran, decida suprimir-se (o contrário é mais provável, como tem sido o caso, a julgar por diversas cartas de agradecimento que ele recebeu de leitores de todas as partes e de todos os backgrounds, from all walks of life, como se diria em inglês). Quem, após ler Cioran, se decide a nunca mais tomar banho? Ou a nunca mais levantar-se da cama?

Onde existe alguém que tenha traduzido – em sua conduta – uma só conclusão do ensino da astronomia, da biologia, e que tenha decidido não levantar-se mais da cama por revolta ou por humildade face às distâncias siderais ou aos fenômenos naturais? Houve alguma vez um orgulho vencido pela evidência de nossa irrealidade? E quem foi bastante audaz para não fazer mais nada, já que todo ato é ridículo no infinito? As ciências provam nosso nada. Mas quem tirou disto a última lição? Quem tomou-se herói da preguiça total? Ninguém cruza os braços: somos mais laboriosos que as formigas e as abelhas. Mas se uma formiga, se uma abelha – pelo milagre de uma ideia ou por uma tentação de singularidade – se isolasse do formigueiro ou do enxame, se contemplasse de fora o espetáculo de suas penas, persistiria ainda em seu trabalho? (Breviário de decomposição)

Não somos “audazes” o suficiente (nem mesmo Cioran!); felizmente, somos todos réprobos, animais laboriosos, ofegantes e ansiosos, “biologicamente obrigados ao falso”, condenados a reintegrar sempre a “eterna farsa”, esse Sistema de Ilusões universal, abrindo-nos um caminho “no interior do círculo que encerra os seres numa comunidade de interesses”, encontrando-nos um espacinho no mundo, não tanto um teto quanto um chão, enfim, o nosso setor na existência (Plágio por antonomásia). E, apesar de tudo, “continuamos amando” (Silogismos da amargura); continuamos trabalhando, criando, pensando escrevendo, nos “sacrificando” por nada (a “criação sem amanhã” de que fala Camus) E esse “apesar de tudo” recobre um infinito…

O próprio autor reiteradas vezes afirmou o caráter contraditório, pois comprometido com o dado vital, vivido, com as “esferas que significam” (que não são lógico-formais, conceituais), da sua obra. No momento mesmo em que dissesse que a vida não vale nada, Cioran contradiria de alguma maneira esta mesma afirmação, amiúde alguns aforismos adiante, quando não no mesmo. Reiteradas vezes também declarou que, apesar do teor das suas ideias, ele vive como todo mundo vive, fazendo as mesmas coisas que fazem, pois, afinal de contas, não subscreve, não adere a nenhuma de suas “verdades de temperamento”, limitando-se a registrá-las e catalogá-las como um “secretário de suas sensações”. Definitivamente, Cioran não é sinônimo de anomia e paralisia, fatalismo (na prática), niilismo suicida ou coisa que o valha.

Por falar em ser um “secretário de suas sensações”, para terminar, um significativo aforismo do Inconveniente de ter nascido. Numa discussão imaginada com Camus, Cioran responderia: de que me adianta saber que 2 = 2 = 4, quando para mim, segundo a minha experiência pessoal e íntima, “Existência = Tormento”? E conclui: “A equação parece-me evidente. Ela não o é para um dos meus amigos. Como convencê-lo disso? Não posso emprestar-lhe as minhas sensações; quando só  elas teriam o poder de o persuadir, de lhe levarem esse acréscimo de mal-estar que ele há tanto tempo reclama insistentemente.” Não se trata de Camus, obviamente. Clément Rosset, talvez? O amigo e filósofo francês — legítimo continuador da filosofia nietzschiana da beatitude como force majeure e causa indeterminada da alegria trágica de viver — cita Cioran nominalmente em seus livros, deixando claro a sua divergência em relação ao amigo estrangeiro, e pessimista demais para Rosset. Uma coisa os dois tinham em comum: o horror em relação à mera ideia de ser um intelectual público, filósofo engagé, militante, etc. (cf. entretien avec Cl. Rosset). São, no melhor sentido do termo, pensadores privados, filósofos solitários aos quais correspondem consciências e leitores igualmente solitários, numa comunicação profunda e essencial que, assemelhando-se a uma amizade à distância, flerta com aquele silêncio representativo da familiaridade (Heimlichkeit), do sentir-se chez soi

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