A santidade: fruto supremo da enfermidade; quando se está saudável, parece monstruosa, ininteligível e malsã ao mais alto grau. Mas basta que esse hamletismo automático chamado Neurose reclame seus direitos para que os céus tomem forma e constituam a moldura da inquietude. Defende-se da santidade se tratando: ela provém de uma sujeira particular do corpo e da alma. Se o cristianismo tivesse proposto, em lugar do Inverificável, a higiene, em vão buscaríamos, em sua história, um só santo; mas cultivou nossas chagas e nossa imundície, uma imundície intrínseca, fosforescente…
A saúde: arma decisiva contra a religião. Invente o elixir universal: o céu desaparecerá para nunca mais voltar. É inútil seduzir o homem com outros ideais: sempre serão mais fracos que as doenças. Deus é nossa ferrugem, a deterioração insensível de nossa substância: quando penetra em nós, pensamos elevar-nos mas decaímos cada vez mais; chegados a nosso término, coroa nossa decadência e eis-nos “salvos” para sempre. Superstição sinistra, câncer coberto de auréolas que corrói a terra há milênios…
Odeio todos os deuses; não estou suficientemente saudável para desprezá-los. É a grande humilhação do Indiferente.

CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

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